Uma das mais profundas heranças da ditatura em Portugal é um sociedade feudalizada onde a democracia não conseguiu superar os traços mais atávicos da essência da concepção económica e social do estado-novo. Na tentativa bem sucedida de recriar um ambiente medieval, onde os artesãos de organizassem por actividades, o corporativismo é uma ideologia que ainda grassa entre nós. Os novos individualistas deviam reflectir antes de acusar a esquerda de colectivismos e barbaridades parecidas, sobre um país onde foi um regime ditatorial de direita que criou e enraizou na sociedade o hábito de fomentar certo tipo de colectividades como mecanismo de manitenção de uma paz podre.
Que me recorde, assim de repente, existem ordens profissionais para médicos, médicos veterinários, médicos dentistas, farmacêuticos, engenheiros, advogados, economistas, psicólogos, enfermeiros, biólogos, arquitectos, existe a Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas, num primeiro escalão, e a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas noutro, existe a Associação Nacional dos Engenheiros Técnicos que se quer redenominar Ordem dos Engenheiros Técnicos, a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas, etc.
Note-se que nenhuma das anteriores é tecnicamente um sindicato, porque não é deles que estou a falar nem foi o sindicalismo que o Estado Novo quis promover. Antes pelo contrário. A proliferação de ordens e corporações tem antes de mais, sob a capa do livre associativismo, o intuito de permitir aos profissionais do sector, seja este qual for, tentar proteger o mesmo, e nessa medida obdece a uma agenda social conservadora. As mobilidades sociais ascendentes passam a depender, em muitos casos das castas instaladas.
O problema que inequivocamente se gera é o protagonismo político das mesmas. Porque muitas vezes não surge pelos melhores motivos. Inquéritos instaurados por ordens profissionais supõe um julgamento pelos seus pares, e não têm a necessária transparência democrática. Ademais, a mediatização de personagens como o bastonário da ordem dos médicos ou dos advogados (independentemente de quem eles sejam em cada instante) transforma-os numa voz, com legitimidade democrática interna, mas a que o país não é o obrigado a prestar deferência, porque simplesmente não participou dessa legitimização.
Porque há-de ser uma ordem de médicos, por exemplo, a apreciar a conduta disciplinar de um seu membro, quando a vítima dessa conduta não pertence ao clã?
Há processos em tribunais civis. Eu sei. Mas pergunto-me se a vontade de aprofundamento democrático não devia impor algum tipo mais claro de restrição ao poder das ordens e associações.
O livre-associativismo é uma conquista democrática. Mas infelizmente serve vezes demais como mecanismo de manutenção da paz podre que o corporativismo salazarista lhe conferiu. O Salazarismo não odiava nada tanto quanto odiava o conflito de interesses redundante em ruptura. A questão que fica é se deve a democracia ter esse medo do conflito de interesses? A ausência de debate em Portugal é muitas vezes um reflexo deste processo. O conflito dialogante devia ser uma marca de diferença com que infelizmente ainda poucos conseguem conviver.


7 comentários:
A mim sempre me pareceu que a ideologia corporativa floresceu depois do 25 de Abril. Até lá, era coarctada pelo autoridade do governo; ganhou rédea solta após a revolução. Por seu turno, os sindicatos tentaram apoderar-se de alguns ministérios, designadamente o da Educação que já não tem qualquer componente republicana de Instrução! Enquanto os governos não otiverem uma base de apoio político e eleitoral baseado nas classes média e desfavorecida, jamais conseguirão dirigir a coisa pública no sentido independente do interesse do cidadão na sua universalidade abstracta e intemporal.
Estou curioso para ver a reacção a este artigo. Julgo que a questão está muito bem colocada.
"Os novos individualistas deviam reflectir antes de acusar a esquerda de colectivismos e barbaridades parecidas, sobre um país onde foi um regime ditatorial de direita que criou e enraizou na sociedade o hábito de fomentar certo tipo de colectividades como mecanismo de manitenção de uma paz podre."
Não sei sobre os "novos individualistas" mas quem defende verdadeiramente o liberalismo é nesta optica verdadeiramente revolucionário em Portugal.
P.S. Vou começar a escrever sobre riqueza e se tiveres um tempinho passa por lá :)
Não percebo o que é que o "livre associativismo" tem a ver com as Ordens. Ao que me parece, não tem nada a ver. Os profissionais pertencem às Ordens porque a isso são obrigados pelo Estado para poderem exercer a profissão, e não porque livremente se queiram associar.
As Ordens são uma instituição de pertença não livre e, como tal, nada têm a ver com live associativismo.
Luís Lavoura
"As Ordens são uma instituição de pertença não livre e, como tal, nada têm a ver com live associativismo."
Luís se fores reparar nas ordens todas elas nascem de livre associativismo (associação que representa determinada profissão) que por força de lobbie conseguem com que o governos os transforme em ordem (e dessa forma ganharem o monopólio da representatividade).
Caros,
O tema é interessante e vasto.
Mas nesta ocasião quero apenas lembrar um pequeno aspecto; o papel que os nossos últimos governos [PS e PSD] lhes tem destinado. Lembremos que é o estado que lhes confere funções que são naturalmente suas através do diploma legal que as cria. Os seus Estatutos. E a verdade é que estes governos ao cederem aos interesses privados no Ensino Superior, desregularam-no [antes de Bolonha havia mais de 800 designações de Cursos Supriores ...] e ainda hoje não tem sistemas aceitaveis de inspecção e garantia de qualidade. Por isso, para assegurar alguma qualidade em sectores socialmente importantes, como a Saúde e a Engenharia, recorre às ordens para fazer algum controlo e mesmo avaliação, como na Engenharia ... E notem que a Constituição até afirma que o Estado não é corporativo! O que seria se assim não fosse!
Mas há outros aspectos da questão, como a afirmação social de uma profissão usando a Ordem. Veja-se os Enfermeiros que em 1974 era um ensino em escolas de carácter técnico e profissional a que se acedia com o Ensino Básico e hoje é uma ensino de Licenciatura. E estude-se o papel que teve a respectiva Ordem .....
Um abraço,
Nuno
Luís,
Só uma correcção. Há ordens profissionais a que pertença não é obrigatória. A das economistas é um exemplo.
Abraço,
Carlos
Sim, a Ordem dos Economistas não é obrigatória mas uma simples Associação; com um grave defeito: não tem sequer uma Sala de Estar para tomar um café e ir ler o jornal! Brgh
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