José Manuel Fernandes decidiu, em definitivo, despir a máscara do jornalismo isento e assumir a pele do combate político. Ficar-lhe-ia bem assumí-lo, mas é um tanto inútil neste momento. Já todos percebemos de que lado se colocou. E o editorial de hoje é mais um ataque personalizado ao Primeiro Ministro, lembrando episódios a despropósito, e de tal forma inócuos que o país os vetou à ignorância, como José Manuel Fernandes acaba por admitir com frustração. Sobretudo quando foram bandeiras do Público.
Substantivamente mais complexa é a posição que assume no editorial de ontem, em que se cola descaradamente à SEDES e manifesta perplexidades pelas menos liberais conclusões do estudo de opinião conduzido a pedido daquela instituição. Considera particularmente grave que os portugueses se tenham manifestado mais preocupados com questões de subsistência e de nível de rendimentos do que com outros aspectos da vivência democrática. E infere daí um atraso endémico de uma sociedade civil muito colada ao Estado, que valorizaria mais o pão que o voto.
O problema de José Manuel Fernandes divide-se numa bifurcação intelectual que ele força, mas que não existe na realidade. Na sua cosmovisão neoliberal, o pão e o voto são absolutamente separáveis, cabendo ao Estado assegurar liberdades cívicas e aos cidadãos tratarem da vidinha se conseguirem. Não serviram as últimas décadas, e mais surpreendentemente, os últimos meses, para José Manuel Fernandes compreender o falhanço desse modelo. A democracia formal nunca substiu com níveis de miséria social inaceitáveis. Porque a verdadeira acepção de democracia supõe uma igualdade de acesso a oportunidades que exige formas de justiça social redistributiva próprias do socialismo democrático ou da social democracia (conceitos equivalentes, diferenciados em Portugal por um equívoco de Sá Carneiro).
A tradição europeia, que não é estática, mas que tem uma matriz definida, não radica no libertarismo: eu continuo a perguntar quando foi a última vez que um partido liberal venceu alguma espécie de contenda eleitoral na Europa? A direita europeia dominante é marcada pela democracia cristã, que gosta tanto de neoliberalismos como a social democracia. E por isso ambas suportam uma cosmovisão em que o Estado Social tem um papel a desempenhar. Com nuances, não é por essa diferenciação que os partidos que têm exercido o poder na Europa se distinguem. A matriz de pensamento do socialismo democrático demarca-se claramente a outros níveis, como na acção reformadora do Estado, na promoção do exercício de uma democracia plena, em que o ambiente, o acesso generalizado à tecnologia e a tolerância social são valores a respeitar. Considerar isto coisa pouca é não compreender a natureza da Europa.
O socialismo democrático demarca-se também de visões conservadoras ou neoconservadoras que tendem a assimilar perigosamente nacionalismos, visões repressivas em matéria de imigração e uma concepção do sistema jurídico-penal puramente repressiva e não correctiva.
José Manuel Fernandes comete contudo um erro ainda maior ao dar o seu nome a crónicas em que crítica a falta de empreendedorismo da sociedade civíl em Portugal. Porque, como muito bem nota Nicolau Santos, no Expresso de hoje, os últimos 15 dias mostraram uma vitalidade invulgar na sociedade civíl portuguesa - muito embora não partilhe do optimismo dele quanto ao carácter exclusivamente apartidário de todas as iniciativas.
Pegando no exemplo de Nicolau Santos, os últimos quinze dias viram a sociedade civil surgir em força através dos seus cientistas sociais, a pronunciar-se, mediante 3 manifestos, sobre a natureza e pertinência das obras públicas em Portugal. No caso do manifesto que subscrevi, não fui abordado por qualquer grupo de origem partidária, mas antes por um colega economista, que me conhecia, antes de mais, pela natureza das minhas opniões livremente expressas neste blogue. Não encomendamos sites, antes procurando a disseminação do texto do nosso manifesto de forma descentralizada através de blogues e outros espaços.
Além de nós, e com outras motivações mas com o mesmo fim último, o terceiro manifesto surge tembém da sociedade civíl, congregando interesses empresariais e personalidades académicas. E, para todos os efeitos, o primeiro manifesto teve o mesmo tipo de propósito, embora rascunhado por um conhecido militante do PSD e promovido por outro militante do PSD.
Não deixa de ser curioso que José Manuel Fernandes venha, neste momento falar em debilidade da sociedade civil. Quer ele momento mais participativo e espontâneo do que no caso dos 3 manisfestos? Ou será que o seu problema é que sabe bem que o único dos 3 que não partiu da dita sociedade cívil, mas antes de um encosto partidário, foi o único que o seu jornal promoveu e publicou?
Não estão em causa a generalidade dos subscritores. Está em causa saber que o que custa a JMF é que a sociedade civil em Portugal está mais viva à esquerda que à direita. Nada de surpreendente, contudo. Décadas de Estado Novo criam hábitos difíceis de superar.


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